Biografia
Um criador de seres, um contador de histórias, um construtor de mundos...


"Nasci empelicado, de bunda para a lua, uma estrela no peito, a sorte me acompanha, tenho corpo fechado à inveja, a intriga não me amarra os pés, sou imune ao mau-olhado. A vida me deu mais do que pedi, mereci e desejei. Vivi ardentemente cada dia, cada hora, cada instante, fiz coisas que Deus duvida, conivente com o Diabo, compadre de Exu nas encruzilhadas dos ebôs. Briguei pela boa causa, a do homem e a da grandeza, a do pão e a da liberdade, bati-me contra os preconceitos, ousei as práticas condenadas, percorri os caminhos proibidos, fui o oposto, o vice-versa, o não, me consumi, chorei e ri, sofri, amei, me diverti. (...)" 

(Jorge Amado, "Navegação de Cabotagem")
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Filho do Cel. João Amado de Faria e D. Eulália Leal Amado, nascido a 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, no distrito de Ferradas, município de Itabuna, sul da Bahia – plagas que ele mesmo chamou de terras do sem fim – , Jorge Amado viveu sua infância entre os cenários das fazendas de cacau, de onde, talvez, já tivesse extraindo, da vida simples do povo, a substância original que povoaria o imaginário das histórias que mais tarde viria contar. 


"Da coragem indômita nasceu a civilização grapiúna (os poetas, os ficcionistas, tantos), batida sobre o sangue derramado. Os coronéis do cacau, eu os aprendo, irão ser meus personagens nas histórias de espantar. (...)" 

(Jorge Amado, "Navegação de Cabotagem")


Mudou-se com a família para Ilhéus quando tinha um ano de idade, onde passou a infância e estudou os primeiros anos. Desde então, passara a eternizar no coração aquela Ilhéus que mais tarde eternizaria em suas obras, radiografando seus costumes e tipos, suas aventuras e belezas. 


"Eu aprendia os coronéis nas ruas de Ilhéus, os jagunços nas roças de cacau, cursava meus preparatórios antes de vir para as universidades dos becos e ladeiras da Bahia." 

(Jorge Amado, "Navegação de Cabotagem")



Em Salvador, já adolescente, estudou no Colégio Antônio Vieira e no Ginásio Ipiranga, onde ficaria até concluir o curso secundário. Os anos da juventude pelas ruas da cidade da Bahia deram ao Jorge Amado que conhecemos pela obra, o aprendizado popular, repleto de cheiros e gostos, temperos e delícias, crenças e costumes. Neste período de estudante, começou a trabalhar em jornais e a se envolver com os eventos culturais e literários da cidade. Foi um dos fundadores e participante ativo da "Academia dos Rebeldes", fundada em 1928, sob os ecos da Semana de Arte Moderna (1922) e que, ao lado de outros grupos como os das revistas "Arco e Flecha" e "Samba", protagonizaram importante luta pela modernidade nas letras baianas. 


"A Academia dos Rebeldes foi fundada na Bahia em 1928 com o objetivo de varrer com toda literatura do passado. (...) Não varremos da literatura os movimentos do passado, (...). Mas sem dúvida concorremos de forma decisiva (...) para afastar as letras baianas da retórica, da oratória balofa, da literatice, para dar-lhe conteúdo nacional e social na reescrita da língua falada pelos brasileiros. Fomos além do xingamento e da molecagem, sentíamo-nos brasileiros e baianos, vivíamos com o povo em intimidade, com ele construímos, jovens e libérrimos nas ruas pobres da Bahia." 

(Jorge Amado, "Navegação de Cabotagem")



No Rio de Janeiro, fez o curso superior onde se tornou bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Nacional de Direito. Diplomou-se 1935, onde já havia publicado os romances:"O País do Carnaval" (1931), "Cacau" (1933), "Suor" (1934) e "Jubiabá" (1935), entretanto, não haveria de exercer, ao longo da vida, a carreira jurídica. 
Casou-se com a escritora Zélia Gattai em 1945, com quem viveu uma longa trajetória de companheirismo, aventuras e conquistas. Tiveram dois filhos: João Jorge, nascido no Rio de Janeiro em 1947 e Paloma, nascida em Praga (Tchecoslováquia) no ano de 1951, ocasião em que se encontrava exilado naquele país. 


"Quando durante o Primeiro Congresso de Escritores Brasileiros, reunido em São Paulo nos inícios de 1945, me apaixonei por Zélia, comuniquei ao poeta Paulo Mendes de Almeida, meu amigo e amigo dela, apontando-a entre as muitas senhoras e moças que acorriam às sessões, umas poucas para acompanhar os debates, a maioria para namorar: 
- Aquela ali vai ser minha mulher. 
Paulo riu da minha cara. 
- Aquela qual? Zélia? Jamais, não é mulher para o seu bico. 
Não desisti, não tirei da cabeça, estava me roendo de paixão, fiz o que o diabo duvida, não deu outra, em julho Zélia veio morar comigo. Não vai durar seis meses, agouraram, dura até hoje." 

(Jorge Amado, "Navegação de Cabotagem")



Pela experiência artística e pela militância política no Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi eleito Deputado Federal , tomando posse na Câmara em janeiro de 1946. Embora declarasse não ter muitas afinidades com as obrigações do mandato, posto ser avesso aos discursos e aos procedimentos parlamentares, foi responsável por leis que valorizaram e asseguravam direitos à cultura, dentre estas, a emenda que garantiu liberdade de crença religiosa no Brasil. Em 1948, frente as turbulências políticas e a repressão aos movimentos de esquerda teve seu mandato cassado junto com outros companheiros de Parlamento. Neste mesmo ano foi para o exílio em Paris, onde ficaria até 1950. Depois em Praga, até 1952. 


"(...) não nasci para parlamentar, sou refratário às tribunas e aos discursos, só amo fazer o que me dá alegria, o que me diverte.(...)" 

(Jorge Amado, "Navegação de Cabotagem")



Ingressou na Academia Brasileira de Letras em abril de 1961, onde ocupou a Cadeira nº 23. Foi membro da Academia de Letras da Bahia e membro correspondente da Academia de Ciências e Letras da República Democrática Alemã, da Academia de Ciências de Lisboa e da Academia Paulista de Letras. 

Da sua profunda relação e identidade com os povos negros e com os movimentos contra o preconceito aos afro-descendentes, o amado Jorge, contador das histórias da miscigenada cidade de Salvador, ganhou título de "Obá" do "Axé do Opô Afonjá" na Bahia. 


"(...) o amor do povo imuniza contra a peçonha dos amargos. (...)" 

(Jorge Amado, "Navegação de Cabotagem")



Jorge Amado, o contador épico da saga do cacau nas terras do sem fim, o artífice de personagens inesquecíveis, o revolucionário panfletário dos subterrâneos da repressão, o lírico e o satírico da crônica de costumes do seu tempo, faleceu na Bahia, cidade de Salvador em 6 de agosto de 2001. Faltavam, então, apenas quatro dias onde completaria 89 anos. Deixou-nos mais que um legado de títulos e publicações, mas uma riqueza de universos culturais, contextualizados em fatos, tipos, ambientes e costumes que marcaram e marcam a identidade da Região Cacaueira, da Bahia e do Brasil. 


"Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem. Menino grapiúna, cidadão da cidade pobre da Bahia, onde quer que esteja não passo de simples brasileiro andando na rua, vivendo." 

(Jorge Amado, "Navegação de Cabotagem")






REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: 
AMADO, Jorge. Navegação de Cabotagem . Rio de Janeiro: Record, 1992.


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