CYRO DE MATTOS, POR SÔNIA MARON

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Sônia Maron, presidente da Academia de Letras de Itabuna, procedendo a leitura do seu pronunciamento em homenagem ao escritor Cyro de Mattos. - Foto: Eric Souza (FICC ASCOM). 

HOMENAGEM A CYRO DE MATTOS

Auditório do Hospital de Olhos Beira-Rio – Av. Aziz Maron

Itabuna, 21 de outubro de 2016

TEXTO: SONIA MARON.

                     (Por ocasião da Sessão Solene das Academias de Letras de Itabuna e Ilhéus para comemorar a eleição de Cyro de Mattos para a cadeira de nº 22 da Academia de Letras da Bahia).

Confrades e confreiras das Academias de Letras de Itabuna e Ilhéus, autoridades presentes e representadas, senhores convidados, Meu Amigo Cyro de Mattos.

Este auditório nasceu e tornou-se realidade graças ao grupo de médicos que cuidam da visão dos itabunenses – motivo pelo qual enxergam com otimismo o futuro de Itabuna – e à sensibilidade e bom gosto das arquitetas Maria Conceição Araújo e Fernanda Aráujo, mãe e filha. Pelo visto, nasceu fadado a registrar grandes momentos.

 

Aqui estive a primeira vez, como convidada para a cerimônia de outorga do título de cidadão itabunense ao Dr. André Castelo Branco, pela Câmara de Vereadores. Naquela oportunidade, declarei como representante dos clientes desta casa, que o Poder Legislativo merecia aplausos por ter escolhido um cidadão que efetivamente merecia a homenagem pelo fato de ser público e notório os relevantes serviços  que presta, em sua especialidade, à sociedade de Itabuna, residindo em Salvador e pertencendo ao corpo clínico deste Hospital, ao qual comparece mensalmente para atender seus pacientes. Não foi uma cerimônia formal, registre-se. O homenageado, avesso a honrarias, foi surpreendido com a reunião singela de colegas, funcionários e amigos.

 

Hoje, as portas deste auditório abrem-se generosamente para receber o filho de Itabuna, escritor no sentido mais amplo e verdadeiro, Cyro Pereira de Mattos, como cortesia do corpo clínico que conduz este Hospital. Abrem-se as portas deste auditório, que representa a confiança no futuro de Itabuna, para homenagear o itabunense que conduziu o nome de sua cidade aos mais distantes rincões do País e cruzou a distância que nos separa de países da América do Sul e da Europa, proclamando ao mundo que Itabuna, cidade do Estado da Bahia, Brasil, luta e não perde a esperança de ver renascer  o respeito à cultura  e à memória da nossa cidade através do amor aos livros “que fazem o povo pensar” , parafraseando o verso do  poeta Castro Alves.

 

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O homenageado, o escritor Cyro de Mattos, emocionado. - Foto: Eric Souza (ASCOM FICC).

 

O itabunense que acreditou no ideal que acalentava desde criança, trocou o diploma de bacharel em direito pelo caminho da literatura;  sem desanimar diante dos  obstáculos, tornou-se escritor em seu pedaço de chão e em seu país, cruzando fronteiras nos contos, crônicas, ensaios, poemas, romances e livros infantis que trazem sua marca inconfundível: transporta lembranças,  fatos e ficção em leituras que exaltam nossas tradições e costumes, conduzindo à imortalidade este pedaço do chão da Bahia que vem perdendo a identidade e nossa geração preserva porque conheceu em outro momento e aprendeu a amar. Cyro se tornou o nosso embaixador da poesia e da prosa, levando a voz da comunidade grapiúna para o mundo. Todos sabem que ouvidos habituados a outros idiomas, ouvem a voz dos seus personagens nos Ventos Gemedores e dos seus versos no Cancioneiro do Cacau.

O escritor e imortal Álvaro Moreyra escreveu na apresentação de um dos seus livros, Havia uma Oliveira no Jardim, a frase “Ouço os passos de todos os caminhos por onde andei”. A vida nos ensina quão verdadeira é a assertiva. Estou ouvindo nitidamente nossos passos, meus e de Cyro, na Rua Ruy Barbosa, a caminho da Rua São Vicente de Paulo, onde funcionava o Ginásio Divina Providência em um prédio da Sociedade São Vicente de Paulo. Naquele estabelecimento de ensino, além das disciplinas do Curso de Ginásio (era a denominação da época), recebemos preciosas lições de valores morais e éticos jamais esquecidas. Aprendemos a amar e respeitar o nosso idioma com a professora Odete Midlej; nosso professor de Matemática, João Arbage, nos fez decorar uma fórmula mágica para aprender a regra dos números relativos: “Os amigos dos meus amigos, são meus amigos; os amigos dos meus inimigos são meus inimigos; os inimigos dos meus amigos, são meus inimigos; os inimigos dos meus inimigos são meus amigos”. Era a filosofia ajudando a matemática. E quando se aprende a pensar tudo fica mais fácil. Alice Maron, educada na França, sucedida por Litza Mary Modesto Câmera cuidaram das noções básicas do idioma francês que nunca foram esquecidas; Nivaldo Rebouças, elegante nos gestos e na postura, de voz bonita e bem modulada no seu inglês de pronúncia britânica, nos fez entender que o conhecimento da gramática é essencial ao domínio de qualquer idioma; Nestor Passos, culto e benevolente nas notas, nos ensinou a cultuar o Latim, o que nós, seus alunos, ainda fazemos apesar da oposição imposta pelos projetos milagrosos introduzidos na educação sem que o milagre anunciado aconteça. Lembremos ainda Helena Borborema, doce, elegante e bonita, ensinando a amar nosso país e conhecer o mundo nas lições de Geografia, sem esquecer os professores de Trabalhos Manuais, Lodi Hage e José Queiroz e a Profª Amália Souza, de Educação Musical, que nos apresentou aos grandes compositores e ensinou a cantar todos os hinos cívicos.  Todos eles igualmente competentes e dedicados à formação dos jovens da nossa geração no Colégio que colocou nas mãos de Cyro de Mattos régua e compasso (parafraseando o Gilberto Gil) para desenhar o seu mundo em traços seguros.

 

A gratidão que manifesto aos nossos primeiros mestres tem como maior expressão a Profª Lindaura Brandão Oliveira, diretora do estabelecimento de ensino fundamental e médio que marcou com dedicação e competência incomuns a formação de muitas gerações. Embora destruído materialmente, nosso Colégio permanece vivo na lembrança e nas conquistas de todos os ex-alunos que deploram a infeliz decisão dos responsáveis pela tentativa de destruir um marco da memória de uma região, atitude própria daqueles que não tendo um passado para recordar com devoção e orgulho, maculam o presente e perdem o direito ao futuro.

 

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Da esquerda para a direita, a professora Denize Tavares, o escritor Cyro de Mattos, Dona Marisa Mattos, a professora Nilmecy Gonçalves e a escritora Sônia Maron. 

 

Que bom, Cyro, que eu esteja ao seu lado neste momento; que bom tenha ocorrido a escolha do seu nome na Academia de Letras da Bahia exatamente para a cadeira de nº 22, que pertenceu originariamente a Ruy Barbosa e que o primeiro título de Doutor Honoris Causa da Universidade que representa a Região Sul da Bahia pertença a você, graças à iniciativa da Profª Reheniglei Rehem, servindo de paradigma para os futuros agraciados.

 

Não posso e não quero ocultar a emoção de estar ao seu lado neste momento, reunidos hoje neste pedaço de chão que tem a marca dos nossos passos de crianças da Rua Ruy Barbosa e à luz das mesmas estrelas, muitas delas sorrindo e comemorando sua conquista. Imitando a metáfora de Antoine de Saint Exupéry, que percebia estrelas sorrindo, sabemos que muitas delas, em outra dimensão, estão ao nosso lado. Comemoram de onde estão porque reconheciam seu valor na literatura nacional e admiravam sua teimosia e determinação pelo fato de permanecer em Itabuna, terreno árido para o florescer da cultura. Todos os nossos professores aqui referidos admiravam sua paciente construção de uma obra fincada em nossa região quando já possuía asas vigorosas para voar e partir para bem longe de nós. Ainda bem que você ficou, Cyro.

 

Como é visível, minha formação não pertence ao mundo estrito das letras e não sou a pessoa indicada para produzir ensaios e resenhas destinados à análise e/ou exaltação da obra de Cyro de Mattos. O que eu sei e posso proclamar é que nosso conterrâneo integra a galeria de imortais onde pontificam Jorge Amado e Adonias Filho, com um detalhe a ser destacado: nunca saiu de Itabuna, sua cidade natal, sua inspiração. E sua presença e participação na vida de Itabuna foi fator determinante para a existência da academia de letras que se faz representar na vida cultural da cidade através da Revista Guriatã. O segundo número, neste evento distribuído aos nossos convidados, teve a edição assegurada graças à generosidade do empresário Helenilson Chaves; tem Cyro como editor, dando prosseguimento ao trabalho iniciado pelo Prof. Ruy do Carmo Póvoas. Obedecendo ao mesmo critério anunciado no primeiro número, de oferecer o melhor da produção de cada acadêmico, continua enfrentando o desafio da divulgação do viver das Letras em nossa região.

Esta homenagem das Academias de Itabuna e Ilhéus, às quais você pertence, tem um alcance maior e não se resume apenas ao reconhecimento da respeitada instituição do Estado da Bahia. Acompanhando seus passos segue a geração que lhe aplaude, a cidade que você ama e o seu colégio que ressuscita com sua assunção. Parabéns, meu amigo. Conferimos  a você o título de representante da nossa geração, outorga  que torna um imortal eternamente responsável.

 

* Discurso escrito e lido pela Digníssima Presidente da Academia de Letras de Itabuna, Srª Sônia Marom, em sessão solene realizada no Auditório do Hospital de Olhos Beira Rio, em Itabuna. A sessão foi assinada em conjunto com a Academia de Letras de Ilhéus para comemorar a eleição de Cyro de Mattos para a cadeira de nº 22 da Academia de Letras da Bahia. 

             

Nota da FICC: A Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC) fez-se presente na homenagem através de sua diretora presidente, Nilmecy Santos Gonçalves e a coordenadora Denize Tavares, uma das quais planeja e organiza o Programa de Artes e Cultura em Áreas de Interesse Social (PACAIS). A FICC compreende que a homenagem proposta pelas duas casas literárias de Itabuna e Ilhéus a Cyro de Mattos é mais do que justa. Trata-se de um momento único em que reverbera-se da forma mais ampla possível o encontro de um imortal com os seus admiradores e amigos. A emoção do homenageado esteve à altura do momento e era visível. Só não se sabe se a emoção maior era a dele, ou daqueles que ali estavam, numa reverberação de intelectuais que construíram a história de Itabuna e da região Sul da Bahia, como fontes inspiradoras que são para todos aqueles que cultivam da melhor maneira as letras grapiúnas. Em tempo, a posse de Cyro de Mattos na Academia de Letras da Bahia acontece no próximo dia 10 de novembro de 2016, às 20h., no Palacete Góes Calmon, em Salvador.        

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