BALLET BOLSHOI: baianos dão prova de superação diária

TEXTO: MARÍLIA MOREIRA | CORREIO DA BAHIA, publicado na versão online do jornal em 28/9/2016.

No palco, sorrisos largos, passos ritmados, aplausos da plateia. Uma hora antes, correria nos bastidores: entrevista, figurino, maquiagem, selfies no camarim. Há dois anos,  essa  rotina não passava de um sonho distante. Mas os baianos Giovane Santana de Jesus, 13 anos, e Jadeson Santos Reis, 11, fizeram por onde tudo isso se tornar realidade. A ainda pequena trajetória de  vida de cada um deles pode ser resumida em quatro palavras: desejo, determinação, disciplina e gratidão.

Giovane Santana, 13 anos, e Jadeson Santos, 11, durante apresentação na Escola do Teatro Bolshoi do Brasil (Foto: Cleber Gomes/ Divulgação)

Com o apoio da família e de amigos, os dois chegaram, ano passado, à Escola do Teatro Bolshoi, em Joinville, Santa Catarina. Passaram por um rigoroso processo seletivo que supera os mais concorridos vestibulares do país, com mais de 50 candidatos concorrendo a uma vaga .

Atualmente, 219 estudantes estão matriculados no Bolshoi, sendo  18 deles baianos. Os alunos  recebem bolsa integral para estudar dança e música. Na única filial do renomado balé russo em todo mundo, eles ainda têm direito a muitos benefícios, pelos quais não pagam nada. 

Para isso, os garotos precisam manter um bom desempenho na escola regular durante os oito anos de formação como bailarinos profissionais. Jadeson e Giovane fazem parte dos 78% de alunos do Bolshoi matriculados em escolas públicas de Joinville e ainda integram outro dado: estão entre os 30% de bolsistas da instituição cujas famílias vivem com apenas um salário mínimo.

 

Mudança


No caso de Giovane, a família embarcou no sonho junto com ele. Em janeiro de 2015, ainda morando em Cipó, no nordeste baiano, eles bateram de porta em porta e conseguiram o dinheiro para pagar as passagens aéreas e custear a mudança. Naquele momento, o irmão de Giovane, que morava com ele e a mãe, teve de se separar da família e ir viver com o pai, que já residia em São Paulo.

Giovane e a família vivem em uma casa simples, alugada recentemente. Ele e a mãe chegaram a morar de favor (Foto: Cleber Gomes/ Divulgação)

Com menos pessoas  em Joinville, as coisas talvez pudessem ser resolvidas mais facilmente. “Foi uma batalha, só eu e Giovane, saudade do outro, dos amigos, mas conseguimos”, contou  a mãe do garoto, Ivone Caribé.

Já Jadeson teve de enfrentar a maioria das mudanças longe dos pais e dos três irmãos. A família dele é de Itabuna, no  sul da Bahia. A mãe trabalha como feirante e o pai como motorista de ônibus. O desejo de ser dançarino nasceu no núcleo familiar, quando viu o irmão, quatro anos mais velho, dançar na escola em que estudava. Inspiração para Jadeson, Wadson também participou da mesma seleção do Bolshoi, mas não foi aprovado na seletiva final. Por conta disso, Jadeson teve de seguir sozinho para o Sul do país.

  • (Foto: Cleber Gomes/ Divulgação )
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Mais de 2 mil  km  separam a Bahia de Joinville e outros 527 Cipó de Itabuna. A despeito da geografia e justamente por conta dela, hoje, Jadeson e Giovane são amigos inseparáveis. Na sala de aula, ao mirar um, o outro vai sempre estar por perto. E os planos para o futuro também se assemelham: os dois pensam em dançar, mas sobretudo em ensinar a outras crianças o que aprenderam.

 O caminho já foi trilhado por professores que hoje dão aula a eles. É o caso de Maikon Golini, que entrou na escola aos 7 anos, na primeira turma do Bolshoi, e hoje lapida talentos, como Giovane e Jadeson. “Ele é muito legal, ensina muitas coisas pra gente e sempre nos apoia, porque ele também viveu isso”, destacaram.  

Distância
A saudade de quem ficou para trás dói, mas também sustenta. “Tem que aguentar, porque meu sonho está se realizando e também porque eu quero isso aqui para ajudar minha família, dar uma vida melhor a eles”,  disse  Jadeson, com certa timidez,  mas muita segurança. A dificuldade de viver em uma casa social fica evidente no olhar, que por muitas vezes durante a entrevista procura o chão. “E eu já tenho muitos amigos aqui também”, continuou, deixando para lá o baixo astral e focando nos seis anos que ainda restam para concluir o curso.  

Depois de prontos para espetáculo, Giovane e Jadeson posam para selfies ao lado de colegas no camarim
(Foto: Cleber Gomes/ Divulgação)

Em dois anos, Jadeson reviu a família em duas oportunidades: nas férias do fim do ano passado, em que pôde voltar para Itabuna, e em meados deste ano, quando um programa de TV bancou a viagem dos pais e dos três irmãos dele para assistir pela primeira vez a uma apresentação dele no Bolshoi, uma das coisas que o garoto mais desejava. “Foi muito emocionante, sempre quis que eles me vissem no palco”, lembrou, sobre a emoção de ter a família por perto.

Giovane, por sua vez, não voltou à Bahia. “A passagem estava muito cara, acabei indo pra São Paulo visitar meu pai no final do ano passado também”, contou. E as vidas desses dois baianinhos  continuam seguindo cheias de desafios diários. “A gente sabe que é isso que a gente quer e vamos continuar persistindo”, dizem.

Programa Amigos do Bolshoi ajuda a manter bolsas

Com a missão de formar cidadãos por meio do ensino da dança, a Escola do Teatro Bolshoi, em Joiville, é a única fora da Rússia. Fundada em 2000, foi idealizada  pelo bailarino Alexander Bogatyrev, que morreu em 1998. O espaço onde ocorrem as aulas é cedido pela prefeitura. Todos os 219 estudantes são bolsistas e têm acesso a duas refeições por dia, reforço escolar, assistência médica, dentre outros benefícios pelos quais não pagam nada. Isso é possível por conta dos chamados Amigos do Bolshoi, empresas e pessoas que apoiam a instituição através de recursos financeiros ou mesmo do fornecimento de equipamentos e prestação de serviços. A Coelba é uma dessas parceiras e custeia parte das atividades dos baianos Giovane e Jadeson. Saiba mais sobre a iniciativa  e como contribuir através do site  www.escolabolshoi. com.br/amigos-do- bolshoi/.

*A jornalista viajou a convite da Coelba, empresa amiga do Bolshoi

 

COMPLEMENTANDO INFORMAÇÕES:

O MENINO JADESON E A CIDADE DE ITABUNA

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A coordenadora Dayse Santos, do Viv-à-rte, foi uma das grandes incentivadoras de Jadeson. - Foto: Arquivo ASCOM FICC.

A história de Jadeson Santos Reis, que, hoje, ganha cada vez mais espaço na mídia por ser um exemplo de superação, compromisso e dedicação, surpreende, sobretudo, por ele ser um exemplo de altruísmo e superação. O seu talento começou a se desenhar desde cedo quando, a partir de 2013, passou a fazer parte de uma das ações sociais mais contundentes atualmente mantidos pelo poder público local: o programa Viv-à-rte, hoje mantido pela Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC). 

Foi através desse programa que o bailarino conseguiu participar da seletiva do Bolshói em Itabuna no ano de 2014 e também tem sido através do mesmo que está havendo a possibilidade dele permanecer na cidade de Joinville / SC. Atualmente fazendo parte do corpo discente da Escola Teatro Bolshói, Jadeson mora numa casa cuja manutenção é custeada também pela Prefeitura de Itabuna, assim como cabe ao município repassar mensalmente valores que ajudam no custeio de alimentos do jovem talentoso, bem como da pessoa (conhecida como "mãe social") que contribui pela sua permanência.

Para Dayse Santos, coordenadora do programa Viv-à-rte, "é importante que se diga que na verdade a cidade de Itabuna tem contribuído muito para fazer surgir talentos como o do menino Jadeson. Esse é um dos grandes exemplos de como atitudes firmes ajudam e muito. O mais difícil nessa história toda, é a distância da família, mas até nisso observamos como o Jadeson tem sido forte. A cidade tem que ter orgulho desse menino", revelou. 

A história de Jadeson é tão inspiradora que já foi relatada por duas vezes no programa de televisão "Legendários", da Rede Record e também no programa "Como Será?", da Rede Globo. 

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